Voos do modernismo

Cataguases, que abriga obras do principal movimento cultural brasileiro do século 20, corre risco de ver parte de seu acervo vendida, como ocorreu com painel de Portinari (Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)

O traço de Oscar Niemeyer se encontra com os jardins de Burle Marx, faz uma curva notável para emoldurar os móveis de Joaquim Tenreiro e segue na companhia elegante das esculturas de Jan Zach e José Pedrosa. Em outro espaço, o desenho de Francisco Bolonha tem mais beleza junto ao painel de azulejos de Cândido Portinari e da “família” criada em bronze por Bruno Giorgi – três versos de uma poesia concreta que atrai o olhar como um ímã e revela cores e formas perfeitas. Cataguases, a 315 quilômetros de Belo Horizonte, na Zona da Mata, é um expoente do modernismo brasileiro, uma história que completa oficialmente sete décadas no ano que vem e se traduz em residências, escolas, hotel e monumentos. Em cada um está impressa a marca de profissionais que encontraram na cidade solo fértil e laboratório estético ideais para dar vazão à criatividade e promover mudanças.

Uma viagem pelo patrimônio modernista deve começar pelo imóvel da Rua Major Vieira, 154, no Centro. Foi para essa casa inaugurada em 1942 – e sempre de portão aberto para turistas, professores e estudantes –, que Oscar Niemeyer, de 103 anos, fez o seu primeiro projeto na cidade, a convite do empresário, advogado e intelectual Francisco Inácio Peixoto (1909-1986). O imóvel, muito conservado, é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e pelo município. É uma síntese da arte e arquitetura local, que tem um diferencial em relação a Belo Horizonte, especificamente o conjunto da Pampulha, e Brasília. Em Cataguases, um mesmo projeto reunia, de forma integrada, arquitetura, mobiliário, murais, esculturas e paisagismo, além de pinacoteca e tapeçaria. O resultado é surpreendente e não deixa de maravilhar estrangeiros e brasileiros de outros estados, embora precise ser descoberto pelos mineiros.
“Uma holandesa, curadora de museus em seu país, me disse que esta casa não é um patrimônio só de Minas ou do Brasil, é do mundo”, afirma, com orgulho, Maria Cristina Peixoto Henriques, de 70 anos, um dos sete herdeiros do imóvel. Filha de Peixoto, Maria Cristina, que foi morar ali com poucos meses de vida e ficou até se casar, vive hoje com o marido numa casa em frente. Mesmo sob a chuva da manhã, não se incomodou de mostrar as áreas externa e interna, dividida em dois pavimentos, habitada por parentes. “Antes de morrer, meu pai pediu que nunca nos desfizéssemos desta casa e do seu acervo”, diz Maria Cristina, agora com uma pontada de preocupação e tristeza no olhar.

“Manter uma casa dessas é muito difícil. Fizemos uma reforma e pintura em 2005, mas, para isso, foi necessário vender dois quadros na Casa Sotheby’s, de Nova York (EUA). Consegui que a nossa família desistisse de vender um outro, de autoria de Anita Malfati”, diz Maria Cristina, citando a artista paulista (1889-1964) integrante da Semana de Arte Moderna de 1922. Sentada numa cadeira desenhada pelo designer de móveis português Joaquim Tenreiro (1906-1992), ela conta que tudo no local continua quase como era: “Só os tapetes do chão não estão mais aqui. Acabaram”. Admirando todo esse acervo, é impossível não imaginar ali um centro cultural dinâmico, um museu vivo com referências importantes do modernismo.

“Sou a única herdeira que reside em Cataguases, então fico lutando sozinha. Temos interesse em vender esta casa com tudo dentro, de preferência para Minas. O valor está em torno de R$ 15 milhões. Mas se as autoridades daqui não quiserem, vamos procurar o governo de São Paulo”, desabafa Maria Cristina, enquanto contempla os retratos dos pais pintados por Cândido Portinari (1903-1962) e a tapeçaria do francês Jean Lurçat (1892-1966). O superintendente do Iphan em Minas, Leonardo Barreto de Oliveira, diz que nada impede que a família venda o imóvel, por ser particular, mas se preocupa com os bens integrados. “Em breve, o diretor do Patrimônio Material (Depam) do Iphan em Brasília (DF) e eu vamos fazer uma visita a Cataguases para conhecer melhor o conjunto”, adianta Leonardo.

PAINEL PERDIDO O temor dos especialistas é de que o acervo da Residência Francisco Inácio Peixoto tenha o mesmo destino do painel Tiradentes, de Portinari, com 18m de comprimento por 3m de altura, que ficava no Colégio Cataguases, atual Escola Estadual Manuel Inácio Peixoto. A obra célebre, pintada em 1949, foi vendida há 36 anos para o governo de São Paulo e está no Memorial da América Latina. A escola, o segundo projeto de Niemeyer na cidade, está sendo restaurada.

Fonte:  http://www.em.com.br/

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